Por Sabina Fuhr

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Ilustração: Fabrício Brochier

Já pensou chegar o inverno e não ver mais aqueles sacos de pinhão por todos os lados? E se aquela bergamota suculenta de casca grossa de repente sumir de vez dos supermercados? No futuro pode não existir mais pinhão, nem bergamota montenegrina. Isso mesmo! Tanto um quanto o outro integram a lista brasileira de 27 produtos alimentícios ameaçados de extinção e foram catalogados pela Arca do Gosto.

Em uma referência à metáfora bíblica da Arca de Noé, a Arca do Gosto pertence à ONG Slow Food, organização italiana fundada em 1989 e com atuação no Brasil desde 2006. Assim como animais, ingredientes também podem estar em processo de extinção, afinal, são frutos da natureza.

Desde 1996, quando surgiu a iniciativa, mais de 750 produtos de 48 países foram integrados à Arca. No catálogo brasileiro, além do pinhão da serra catarinense e da bergamota montenegrina, estão o palmito juçara, o pequi goiano, o peixe pirarucu, o vôngole berbigão, a ostra de canaméia, a castanha de baru, a marmelada de Santa Luzia, da região de Luziânia, em Goiás, entre outros itens. Até o momento 27 produtos estão catalogados.

O catálogo foi elaborado e é atualizado constantemente por chefs de cozinha, agrônomos, cientistas da alimentação, jornalistas e antropólogos, que se voluntariam em um projeto da Fundação Slow Food pela Biodiversidade, presidida pelo italiano Carlo Petrini. Para entrar na lista, um ingrediente ou alimento processado precisa não só estar em risco de sumir do mapa, mas ter sabor especial, ser produzido em pequena escala de forma artesanal e estar ligado à memória e à identidade dos habitantes de certa região.

Pinhão

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Pinhão. (Foto: João Ricardo)

O pinhão da serra catarinense é uma atração nos meses de inverno.  Ele cresce em forma de pinha na Araucária Angustifólia. Cada pinha pode conter de 10 a 120 pinhões. A semente sempre esteve ligada à alimentação da região, desde os povos indígenas até os descendentes de italianos e alemães que colonizaram a região meridional do Brasil.

Faz o maior sucesso como petisco assado na chapa do fogão a lenha ou cozido com água e sal. Também aparece em pratos como paçoca de pinhão e no entrevero, um cozido de verduras e carnes.  Ele está ameaçado de extinção porque as araucárias nativas estão sendo substituídas pelo pinheiro-canadense, plantado para a exploração da madeira.

Bergamota

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Bergamota

A Bergamota montenegrina é resultado de mutação espontânea, descoberta em 1940 em Campo do Meio, na área do município de Montenegro (Vale do Caí), por João Edvino Derlam, um agricultor de origem alemã. Esta variedade produz frutos tardios, entre setembro e outubro. A fruta tem a casca resistente e é muito saborosa. Hoje em dia esta variedade está ameaçada de extinção devido à baixa variabilidade genética nos espécimes existentes, que foram obtidos por reprodução vegetativa.

Combatendo a extinção 
Para evitar que todos estes alimentos catalogados desapareçam de vez, existem diversos projetos para protegê-los. O próprio movimento mantém projetos de conservação chamados Fortalezas.

Em parceria com as comunidades locais, trabalha-se para que certos ingredientes não deixem de ser produzidos, incentivando a variedade de receitas, facilitando o contato do produtor com o mercado e divulgando os produtos para que sejam mais consumidos. Afinal, pode parecer contraditório, mas alguns alimentos correm risco de extinção não porque foram explorados demais, mas sim de menos. É o caso até do arroz vermelho e do feijão-canapu.

Como o consumo é pequeno, muitos produtores deixam de cultivá-los, pois não conseguem fazer dessas iguais seu ganha-pão.

Alimentos Brasileiros na Arca do Gosto

Arroz Nativo do Pantanal
Arroz Vermelho
Babaçu
Berbigão – Esse molusco é um alimento de alto valor nutricional, rico em vitaminas, e excelente sabor. Também conhecido como marisco-da-areia, o berbigão é abundante no litoral de Santa Catarina
Bergamota Montenegrina
Bijajica
Bocaiúva
Butiá
Cagaita – É uma fruta nativa brasileira, presente em todo o Cerrado, na região centro-oeste do Brasil. Os frutos são bastante consumidos, tanto ao natural como na forma de doces, geleias, sorvetes e sucos, podendo ter sua polpa congelada por até um ano.
Cambuci – O cambucizeiro é uma árvore nativa da Mata Atlântica, ameaçada de extinção. Os frutos do têm polpa cremosa e  suculenta, com poucas sementes. É ligeiramente doce, mas extremamente ácido, parecido com o limão.
Castanha de Baru
Farinha de Batata Doce Krahô
Feijão Canapu
Guaraná Nativo Sateré-Mawé
Jaracatiá
Jatobá
Licuri – É uma palmeira típica do semi-árido nordestino. De sua amêndoa são produzidos o licuri torrado, o licuri caramelado, granola, cocada, paçoca, biscoitos, óleo, leite-de-coco, além de outros produtos
Mangaba – Fruto da mangabeira, uma árvore de clima tropical, nativa do Brasil. A polpa é branca, mole, um pouco viscosa e fibrosa. Tem um sabor doce, acidulado e muito gostoso.
Maracujá da Caatinga
Marmelada de Santa Luzia
Ostra de Cananéia – A exploração da ostra é baseada no sistema de produção familiar. Com objetivo de sanar a dependência dos atravessadores na venda das ostras e a alta exploração do recurso, a comunidade criou em 1998 a Cooperativa dos Produtores de Ostras de Cananéia (Cooperostra) em parceria com instituições governamentais envolvidas na área. As ostras são limpas e levadas para a Cooperostra, onde passam por um processo de depuração, tornando-as adequadas ao consumo. As mulheres da comunidade utilizam o ingrediente em pratos da região, como a torta de ostra, o pão de ostra e a farofa de ostra.
Palmito Juçara
Pequi
Pinhão
Piracuí
Pirarucu
Umbu



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