
Quando Rodrigo Monteggia fala sobre pizza, ele fala como quem descreve uma obra viva. “A pizza é uma tela em branco”, resume. E talvez seja exatamente isso que explique a trajetória do empresário que trocou o sistema financeiro pela gastronomia e transformou a Montecchio Pizzaria em uma referência do delivery em Porto Alegre.
Antes dos fornos, das massas de longa maturação e das combinações improváveis de sabores, Rodrigo viveu quase duas décadas no setor bancário. Trabalhou em banco privado até 2019, embora a pizzaria já funcionasse desde 2017. Durante anos, viveu uma rotina dupla: banco durante o dia, pizzaria à noite.

A decisão pelo novo projeto de vida
A mudança começou ainda em 2011, quando uma troca de gestão no banco provocou nele o desejo de reinventar a vida profissional. “Eu gostava do que fazia, mas chega um momento em que tu te decepciona com algumas políticas e percebe que é hora de mudar”, conta. “Eu vinha crescendo, me destacando, mas mudou a gestão, mudou a carteira, e de herói tu vira o cocô do cavalo do bandido. Aí pensei: vou construir algo meu.”
Casado com Fabiane e pai de Luigi e Isabeli, Rodrigo decidiu mergulhar na gastronomia de forma planejada. Estudou cozinha na Escola de Gastronomia Aires Scavone (Egas), em Porto Alegre, fez cursos online, participou de feiras, pesquisou equipamentos e buscou formação técnica da escola italiana.
A escolha pela pizza veio acompanhada de uma percepção estratégica: o delivery seria o caminho. “Pensei: quem não gosta de pizza? Mas eu queria entender o mercado antes de entrar nele”, explica.
“A pizza é uma tela em branco.”

O lado nada romântico do começo
O início foi longe do glamour gastronômico. Localizada no bairro Petrópolis, a Montecchio cresceu na insistência. Quando não havia pedidos, Rodrigo ia para a rua distribuir panfletos nos semáforos. “O bairro me abraçou. Eu vendia uma pizza, voltava correndo para produzir e seguia assim.”
Hoje, a Montecchio é conhecida por uma proposta que mistura fartura gaúcha, técnica italiana e identidade própria. Rodrigo estudou profundamente o comportamento do consumidor local antes de definir o produto. “Percebi que o gaúcho gosta de fartura. Então peguei a característica da pizza daqui, mas dei um toque gourmet.”
“Percebi que o gaúcho gosta de fartura. Então peguei a característica da pizza daqui, mas dei um toque gourmet.”

A massa
A massa talvez seja o maior símbolo dessa busca. Em vez de reproduzir fielmente a pizza napolitana tradicional, ele desenvolveu uma receita própria, pensada especialmente para o delivery. A massa passa por no mínimo 48 horas de maturação e leva azeite e manteiga na composição, tem borda trançada, e é feita com farinha nacional, embora a pizza incorpore vários outros insumos importados, como azeite extravirgem e pelati italiano. “A pizza napolitana foi feita para comer na hora. Na caixa ela vira borracha. Eu precisava criar uma massa que chegasse macia na casa do cliente.”
O cuidado técnico aparece também nos detalhes. Rodrigo diferencia fermentação de maturação com a precisão de quem estudou profundamente o processo e transformou conhecimento em assinatura.

A criatividade desmedida
E é nas coberturas que sua criatividade ganha liberdade. A Montecchio reúne cerca de 70 sabores salgados e mais de 20 doces, muitos deles inspirados em pratos afetivos e experiências pessoais. Entre as pizzas mais conhecidas estão a Maria Bonita, com carne de sol, alho-poró e queijo coalho tostado; a Camarão na Moranga; e a Do Cabreira, criada a partir de uma inspiração em Nova Petrópolis. Cada pizza autoral traz junto uma história, contada com riqueza de detalhes.
A pizza que hoje virou uma referência no delivery em Porto Alegre é tradicional, contemporânea, regional, mas específica nos processos. O pizzaiolo que gosta de trazer para pizza coisas que gosta de comer, até pode usar os mesmos ingredientes encontrados em outros lugares, mas Rodrigo acredita que o diferencial está no método. “A grande maioria faz o mais ou menos. Eu não.”
Ele cita como exemplo a pizza de carne de sol: enquanto muitos apenas abrem a embalagem do ingrediente e colocam sobre a massa, ele desidrata a carne, reidrata com manteiga de garrafa e constrói camadas de sabor antes de finalizar a receita.
Essa obsessão pelo detalhe também aparece no posicionamento da marca. Rodrigo fala com orgulho sobre a escolha dos equipamentos, insumos, da embalagem e da honestidade na comunicação com o cliente. “Eu não vendo pizza de frango com catupiry. Catupiry é marca. Então eu vendo pizza de frango com requeijão. O cliente precisa receber exatamente aquilo que eu me determino a entregar.”
“Quem não gosta de pizza? Mas eu queria entender o mercado antes de entrar nele.”

A Bambu Pasteis
Além da Montecchio, Rodrigo entrou em 2024 em uma nova operação: a Bambu Pastéis, em Canoas, criada ao lado de sócios do setor gastronômico: Nilton Souza, da Bistrô Pasteis e Wagner Eugênio, da Tartallia, pizzaria de Canoas. A concepção da nova casa se deu durante um churrasco. O primeiro passo foi fazer um intensivo na cozinha do Bistrô Pasteis. “Só que o loco da cozinha sou eu. O Wagner é formado em TI e o Nilton foi o primeiro patrão dele em manutenção técnica em TI. Só que eu, depois do financeiro, me dediquei à gastronomia.
O negócio abriu poucos meses antes da enchente que atingiu o Rio Grande do Sul e ficou 42 dias fechado durante a tragédia climática. Mesmo diante das dificuldades, Rodrigo garante que a experiência trouxe novos aprendizados. “Depois da Bambu eu amadureci como empresário. Aprendi a ser mais profissional.”
“Eu aprendo ajudando. Quando ensino, também estou aprendendo.”

O empresário
Uma das grandes transformações da trajetória de Rodrigo foi deixar de ser apenas o pizzaiolo apaixonado pelo forno para assumir o papel de gestor. “Enquanto eu estava com a cabeça dentro do forno, o financeiro estava desajustado. Eu entregava filé cobrando preço de guisado”, recorda.
Hoje ele fala sobre gestão com a mesma intensidade com que fala sobre fermentação. Reconhece que o maior desafio de empreender está nas pessoas e na construção de equipes saudáveis. “Durante muito tempo eu trabalhei de terça a domingo sem descanso. Se faltava alguém, eu cobria. Agora comecei a entender que preciso conquistar tempo com a minha família.”
Essa mudança de visão foi influenciada por conselhos recebidos ao longo do caminho. Um deles veio da empresária Shana Poletto, da Usina do Pastel. “Ela me disse: – Tu só vai evoluir quando tirar a cabeça de dentro do forno. E ela tinha razão.”
“Tu só vai evoluir quando tirar a cabeça de dentro do forno.”

Conselheiro da Abrasel
Ao longo do tempo, Rodrigo também passou a se envolver mais ativamente com o setor gastronômico. Parceiro antigo do Sebrae, tornou-se sócio da Abrasel em 2022 e atualmente integra o conselho da entidade, participando de grupos de troca entre empresários. “São grupos que se ajudam, trocam informação, que é o intuito disso. As dores são as mesmas. E aí, tem as condições de encurtar a caminho. Eu aprendo ajudando. Quando ensino, também estou aprendendo.”
O pizzaiolo é daquelas pessoas que transformam networking em vínculo real: comunica-se com facilidade, aproxima pessoas e deixa marcas positivas pelo caminho. E nas collabs, tem encontrado um espaço para fomentar estas relações. Rodrigo prepara constantemente novas experiências para o cardápio em parcerias dentro da gastronomia. Entre elas, destaca-se uma pizza criada em parceria o Daikô Sen, levando frango teriyaki; e outra com a Da Vó Ateliê de Cucas, onde doce de coco, abacaxi, doce de leite e a farofinha na cobertura são os protagonistas. “A pizza virou um desaforo”, brinca.
E talvez seja justamente nessa mistura de técnica, criatividade e inquietação que Rodrigo Monteggia construiu sua marca. Não apenas como pizzaiolo, mas como alguém que transformou um alimento popular em linguagem própria. “A pizza é uma cachaça”, diz. “Tu nunca para de descobrir coisas novas.”
Porto Alegre
Rua Dona Alice, 16
Fone: (51) 3377-7700
Instagram: @montecchiopizzaria
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