COZINHA MULTIFUNCIONAL

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Por Carlos Kristensen* 

Recentemente estava folhando uma pilha de currículos a procura de candidatos para uma vaga de auxiliar de cozinha no Hashi.  Ao final desta seleção me deparei com um sentimento imenso de indignação. Entre mais de cem currículos, a maior parte deles era para a vaga de cozinheiro, outros tantos para chef de cozinha e nenhum para a vaga de auxiliar.

Este sentimento me levou ao passado, quase 20 anos atrás, quando iniciei nesta profissão, onde todos se sentiam auxiliares, e ingressar numa cozinha, mesmo que na louça, já era uma vitória, era o começo de uma carreira. Somente depois de algum tempo, muita persistência, dedicação e uma dose gigante de humildade, começávamos a nos sentir um pouco mais preparados, um pouco mais seguros para mostrar o que havíamos aprendido, e rezar para que novas oportunidades se abrissem. E como elas demoravam para acontecer. A máxima de que a repetição leva à perfeição se aplica muito na cozinha. E era assim que aprendíamos…

Voltei para a pilha de currículos na minha frente, e à minha busca frustrada de alguém que imaginei chamar de auxiliar de cozinha. Hoje já muito diferente do que antes, este auxiliar não precisa mais entrar lavando louça e penar meses para ter uma chance com uma faca. As faculdades, os cursos profissionalizantes e as escolas de gastronomia abreviaram esta passagem pela base da cozinha. Abreviaram tanto que hoje todos querem entrar cozinheiros ou chefs. Mal se formaram, não trabalharam e já querem demonstrar toda a sua técnica e experiência adquiridas na sala de aula. Ninguém mais quer começar do começo. Um cozinheiro, assim como em outras profissões, tem que passar por várias etapas para se tornar um bom profissional. Querer pular a “parte ruim” é jogar fora um pedaço importante da sua formação. A humildade é a base do aprendizado!

Somente hoje, depois de quase 20 anos na cozinha, me sinto maduro para chefiar uma equipe, para criar, para ter uma linha coerente de pensamento, para tocar um grande restaurante. Me detenho um pouco mais nos detalhes dos currículos à minha frente e leio “chef de cozinha com dois anos de experiência no ramo”, e fico pensando se este é o futuro profissional que teremos por aí. Recorro até as mídias sociais, onde chove de tudo, e exponho minha indignação gerando um mar de comentários de colegas e amigos, cúmplices deste sentimento de que algo está fora da ordem. Fico feliz em não me sentir tão sozinho, este é o tipo de problema que só muda de endereço.

Por fim, diante de todo esse bafafá, surgem os auxiliares, os primeiros contatos de candidatos dispostos a percorrer o único caminho para se tornar um bom cozinheiro. Me pego sorrindo de novo, enquanto leio os novos currículos, contente em ver uma luz de esperança, uma pequena faísca, neste tão “glamouroso” mundo da cozinha.

* Carlos Kristesen é chef e proprietário do www.hashi.com.br

1 COMENTÁRIO

  1. acho q é assim em tudo. Uma escola de arte q forma decoradores abriu um curso para “assistente de decorador”. Teve só uma inscrição e fecharam esse curso. As pessoas até topam, com o diploma na mão, trabalhar como assistente para “pegar as manhas”. Mas é pra sair logo e abrir o próprio escritório.
    As companhias de teatro e os teatros vivem em busca de iluminador, contra-regra, etc. Ninguém quer. Querem ser atores ou diretores.

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