Enóloga portuguesa Filipa Pato. (Foto: Lisa Roos)

Uma das mais respeitadas enólogas de Portugal, Filipa Pato, percorreu o próprio caminho para cultivar suas raízes e manter a tradição de sua terra.

Em 1808, Portugal presenteava o mundo com um dos maiores poetas da História, cujo um poema disse que “o Homem é do tamanho dos seus sonhos”. Fernando Pessoa jamais soube da existência da personagem desta matéria, se a conhecesse teria, ainda mais, firmeza ao entalhar tal passagem.

Duzentos anos depois, naquele mesmo país, vive uma poeta tão singular como Pessoa. Esta não é uma poeta de palavras, mas de aromas e sabores. Filipa Pato compartilha, tal qual o poeta, a si mesma em versos que adentram garrafas e tomam corpo em taças. Vinhos que desnudam sua produtora, mostram sua face poetiza de querer desvendar ao mundo sua alma, suas raízes, suas utopias. Assim como os versos de Fernando Pessoa, a bebida produzida por Felipa tem identidade, DNA próprio, falam por si.

Foto: Filipa Pato/Divulgação

Se ele é amor em forma de palavra, ela é amor em forma de vinhos. Filia Pato é gigante, com perdão do superlativo. Ela é do tamanho do seu sonho. O sonho de produzir vinhos que contam história, que carregam raízes. Vinhos Filipa Pato.

Vinhos na Bairrada

Nascida na Bairrada, na Costa Litorânea, no centro de Portugal, uma região que produz vinhos há séculos, Filipa cursou Engenharia Química e se aventurou pelo mundo. Estagiou na França, Austrália e Argentina, aprendeu as mais diferentes técnicas de vinificação e retornou à terra natal. Lá, daquele cantão do país, ela lidera o projeto Vinhos Autênticos, sem Maquiagem. No ofício dominado pela presença masculina, Filipa se empodera de seu espaço com a sutileza de uma dama.

Entre as 10 enólogas mais influentes de Portugal
Alguns dos vinhos produzidos por Filipa Pato. (Foto Lisa Roos)

A vinícola que leva o seu nome produz vinhos, em geral, com a uva baga, casta histórica da localidade, tida como uma das melhores do país. Produzindo desde 2005, Filia Pato é hoje uma das maiores produtoras de vinhos da Europa e está entre as 10 enólogas mais influentes de Portugal. Seus produtos são comercializados em 30 país, como Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Noruega e França. Somente na Inglaterra, seus rótulos estão presentes em 32 restaurantes com estrelas Michelin.

Filha de peixe

Se filho de peixe, peixinho é; filha de viticultor, viticultora é. O provérbio antigo é a personificação de Filipa Pato, descendente de uma família que produz vinhos ícones da Bairrada. Seu pai, Luís Pato, é conhecido como o embaixador da Baga. Até a chegada dele na localidade, o corte era utilizado para produzir vinhos rústicos, ácidos e muito taninos. Pato, então, reconheceu a singular estrutura, intensidade e peculiaridades da fruta e decidiu fazer vinhos refinados e inimitáveis. A importância dele é tamanha, que além de ser apelidado como o “revolucionário da Bairrada”, a produção de vinhos e espumantes com a uva Baga pode ser dividida entre antes e depois de Luís Pato. Assim, Filipa nasceu entre uvas, vinhedos e a inspiração para produzir rótulos ímpares. “Às vezes digo que meu pai colocou Baga na mamadeira”, brinca ao contar que desde a infância já tinha contato íntimo com a fruta.

Foto: Lisa Roos

Embora tivesse todas as clareiras já abertas para seguir à sombra do pai, Filipa se desvencilhou do ninho para alçar seus próprios voos, para provar sua competência. Isso não quer dizer que ela renegue suas origens e desfaça da importância de sua família. “Meu pai deu-me o nome que muito ajuda, mas tive de começar do zero na investigação do local, tive de comprar uvas”, conta.

A própria vinícola

Depois de percorrer o mundo provando e aprendendo sobre vinhos, Filipa voltou a Portugal e deu início a sua própria vinícola. “Eu fiquei muitos anos procurando vinhas Bagas. Fui adquirindo algumas propriedades, arrendando outras. Há poucos anos, depois de muito procurar, encontrei vinhas velhas, quase perdidas no meio da Bairrada, foi uma alegria imensa”, conta ela, que ressalta possuir vinhedos plantados há mais 140 anos.

Bagas Centenárias

Foto: Filipe Pato/Divulgação

Vinhos portugueses, em geral, são produzidos com mais de uma casta. Embora alguns rótulos de Filipa concentrem porcentagens de outras uvas, como Bical, Arinto e Maria Gomes, sua produção é basicamente direcionada para a Baga. “Na Bairrada sempre houve a tradição de usar 90% Baga. Claro que nas vinhas velhas tem outras castas, mas a quantidade não passa de 1%. Partimos dessa tradição e a região é única por isso”, destaca ela que traz consigo a força para recontar a importância da uva Baga para a região em que nasceu.

E ao discorrer sobre a icônica uva, Filipa tem o mesmo carinho da mãe que conta os talentos de um filho: “A Baga é uma uva que tem muito caráter. É uma coisa única. Meu pai e eu produzimos vinhos com a mesma uva, na mesma região, mas não corremos o risco de termos os mesmos vinhos. Cada microrregião produz um resultado diferente”, diz ela orgulhosa.

Vários terroirs diferentes
Foto: Filipe Pato/Divulgação

Para produzir seus vinhos atuais, Filipa adquiriu diversas pequenas porções de terras com vinhedos. Diferentes de outras regiões, onde é possível comprar vários hectares, na Bairrada as terras são divididas em muitos proprietários. Assim, ela teve de comprar vários terrenos, em diferentes partes da localidade, tendo, por tanto, vários terroirs diferentes. E isso foi um fator positivo para Filipa. “Cada vinha produz um resultado diferente. Esta é parte mais interessante. Porque eu tenho que conhecer o que cada pedaço de terra me dá. Depois que descubro o resultado de cada parte, faço o todo. Isso é um universo fantástico”, conta. Uma das aldeias, que hoje é de Filipa, era arrendada por sua avó para plantar uvas e produzir vinhos, parte da gênese da família Pato em produção vinicultora.

Vinhas velhas
Foto: Filipe Pato/Divulgação

É verdade que videiras velhas produzem em menor quantidade. Se lucro é o que o produtor busca, este não é o melhor caminho. Ocorre que Filipa parece não se importar tanto em produzir milhões de litros, mas sim muita qualidade e por isso opta por vinhas com, no mínimo, 30 anos de vida. “As vinhas velhas já passaram por muitos problemas climáticos, como verões secos, por exemplo. Elas têm raízes mais profundas, porque precisam ir mais a fundo para buscar água. Assim, elas absorvem mais minerais do que as videiras novas. Os nutrientes que ela capta do subsolo são importantes para termos uma uva equilibrada, com calcário e argila”, frisa a enóloga.

Sem maquiagem
Filipa Pato durante passagem por Porto Alegre em 2017. (Foto: João Ricardo)

É inegável que Filipa Pato tem, além do vinho, paixão por História. Seu trabalho segue o leme da valorização cultural da uva Baga e da região da Bairrada. Nos últimos anos, ela deu mais um passo em direção à rememoração das origens de sua terra, lançando o vinho Post-Quercus, que significa “pós-carvalho”. O novo rótulo é, claro, produzido com sua uva preferida e segue os preceitos do manejo biodinâmico. A técnica adota o modelo da agricultura baseada no equilíbrio natural, potencializando elementos da biodiversidade para produzir. As videiras não recebem cargas de pesticidas e agrotóxicos. Animais ajudam a manter os parreirais longe de ervas daninhas e flores são plantadas ao redor das vinhas para sinalizar a presença de pragas. Fora isso, o manejo é todo humano.

Vinho Post-Quercus Baga Filipa Pato. (Foto: João Ricardo)

A enóloga faz questão de participar de todas as etapas da vinificação e também da vindima. Gosta de estar em contato com a vinha, de conhecer e acompanhar seu crescimento. Acredita que a intervenção humana na terra também ajuda a moldar um vinho. “Sou uma artesã. Sujo minhas mãos para fazer um vinho”, orgulha-se Filipa enquanto olha para suas mãos, que, por certo, a milhas de distância de suas vinhas, sente saudade.
Em Porto Alegre apresentando seus vinhos, a convite da importadora Porto a Porto, ela conta que para produzir o Post-Quercus as uvas são colhidas e selecionadas manualmente e o vinho fermenta e estagia em ânforas de barro que são enterradas no solo, mantendo a temperatura correta para a vinificação. O solo da Bairrada é composto de argila e calcário e quando os romanos ocuparam a região eles já utilizavam esta técnica para a elaboração do vinho. “A fermentação e o estágio desta forma possibilitam a troca de oxigênio e assim os taninos da Baga ficam mais macios, além de os aromas serem mais delicados do que seriam se elaborássemos o vinho por meio de outro processo”, relata Filipa.

Vinhos autênticos
Foto: Lisa Roos

Vinhos autênticos, sem maquilhagem assim que Filipa Pato escolheu batizar sua linha de produção. E ela é a metáfora daquilo que vende. Ao chegar para a sessão de fotos para esta matéria, Filipa, uma mulher de hábitos simples, sorriso cativante e dona de uma leveza envolvente, não trazia em seu rosto maquiagem – fora salva pela assessora de imprensa que tirou batom e um pó da bolsa. Ela quer ser vista, assim como seus vinhos, por sua essência. A enóloga e seus produtos correm o mundo espalhando uma verdade. No coração de Filipa pulsa vinho de uva Baga de uma safra que dificilmente se repetirá.

Os vinhos Filipa Pato chegam ao Brasil através da importadora Porto a Porto.



2 COMENTÁRIOS

  1. Caros!
    Gostei muitíssimo da matéria sobre a Filipa Pato. Procurei p/ ver quer era o autor mas infelizmente não consegui visualizar. Quero parabeniza-la(o) sobre a matéria, pois foi umas das melhores que já li sobre vinhos. Gostaria de saber o nome, para poder ler outras matérias independente do assunto.
    Obrigada
    Abs
    Jaqueline

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