A morte de toneladas de salmão, no Chile, provocadas pelo El Niño, elevou os custos de pratos da cultura japonesa. Empresários e comerciantes já sentem a alta de mais R$20 no quilo do pescado. Toda essa tragédia tem como pano de fundo a relação entre Homem e Natureza. 

Tsunamis, nevascas, furacões, calor excessivo, falta de chuva, tempestades. Estes fenômenos estão acontecendo sistematicamente no planeta Terra e a incidência tem aumentado. É de conhecimento geral das pessoas a razão pelas quais estes eventos se repetem: a interferência do Homem na natureza. Na escola aprendemos o conceito de efeito estufa e os desdobramentos da mudança climática. O tempo passa, a vida segue e estes aprendizados e premonições, feitas por professores, parecem ficar num imaginário remoto do nosso dia-a-dia. Afinal, pensamos“que diabos posso fazer para salvar o planeta?” Sem respostas, acabamos por fazer nada.
A ideia de distanciamento entre os estragos da natureza e a interferência efetiva destes problemas em nossa vida tem diminuído. Basta um olhar mais atento para que um banho de realidade nos caia sob os ombros. O mundo mudou. O Homem, que faz o clima, também faz mal a ele. Mas o que a gastronomia tem com isso?

No ano passado, cientistas chamaram a atenção para o risco que plantas que nos servem de alimento podem ser afetadas. Uma boa notícia é que os estudos apontam que não há risco de extinção de produtos como leguminosas, cacau, vinho, milho ou trigo. Porém, isso não quer dizer que o acesso a eles será o mesmo no futuro.

Certamente teremos que mudar de cultivo de determinados alimentos, à medida que algumas regiões do mundo ficam quentes demais. De maneira geral, a diversidade e quantidade das colheitas diminuirão. Algumas regiões ao redor do globo terão maiores dificuldades em produzir. Logo, os alimentos ficarão mais caros e escassos.  Aquém da agricultura, a criação de animais também terá os seus prejuízos e eles serão mais severos. Estudos apontam que uma em cada seis espécies de animais deve ser extinta por causa das mudanças climáticas. Você deve estar tendo certo alívio ao ler a palavra futuro, afinal, há muitas chances de não estarmos mais aqui, mas precisamos rever esse conceito.

Cerca de 70% do salmão consumido no mundo é criado em viveiros. O Chile é o segundo maior produtor mundial do peixe. Crédito: Divulgação/SalmonChile
Cerca de 70% do salmão consumido no mundo é criado em viveiros. O Chile é o segundo maior produtor mundial do peixe. Crédito:Divulgação/SalmonChile

O futuro é hoje

O Chile é o segundo maior produtor de salmão do mundo, atrás somente da Noruega. É de lá que vêm os pescados que servem de insumos para nossas receitas, aqui no Brasil. No último ano, o valor deste peixe teve um aumento brutal. A causa do encarecimento é explicada por um fenômeno natural chamando El Niño, causado pela interferência humana no planeta. Esse evento caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, predominantemente na sua faixa equatorial e causa efeitos grandiosos no clima mundial. Especificamente no caso do salmão, o aquecimento da água do Pacífico eleva a proliferação de microalgas que liberam substâncias tóxicas, levando o pescado à morte, pois ela interrompe a respiração e bloqueia as guelras dos peixes.  Com isso, a propagação destes micro-organismos “deixou até agora uma mortalidade de 100 mil toneladas de salmão”, informou no início deste mês o Serviço Chileno de Pesca e Aquicultura (Sernapesca).

A poluição da água é outro fator fundamental nesse caso. Como os salmões são criados em gaiolas e tratados com ração, parte dos grãos acaba indo para no fundo do oceano e, em longo prazo, produz poluentes que afetam a qualidade do habitat dos peixes.

Nos últimos meses, a produção do salmão caiu 30% no país e fez com que o preço se elevasse em todo mundo. Logicamente, a alta acaba refletindo nos pratos, como Sushi e temaki.

Nos últimos meses, a produção do salmão caiu 30% no país e fez com que o preço se elevasse em todo mundo.
Nos últimos meses, a produção do salmão caiu 30% no país e fez com que o preço se elevasse em todo mundo. Crédito:Divulgação/SalmonChile

Salmão mais salgado

Sendo cliente do salmão chileno, o mercado gaúcho sente fortemente o dano desta mortandade.Além disso, diante do surto, as empresas estão adiantando as pescas de salmão – o que causa uma redução da produção por unidade de volume, que normalmente tem uma média de 4,5 quilos.O valor médio do pescado teve um aumento de 80%, em 2015, subindo mais de R$20 por quilo. Com isso, os sushi lovers terão que mudar os costumes se não quiserem pagar mais caro.

Casas especializadas em comida japonesa têm feito artimanhas para poder seguir oferecendo os produtos, repassando o mínimo do aumento para o cliente. “Estamos sofrendo bastante. Durante algum tempo mantivemos o mesmo valor, mas agora tivemos um aumento de 15% no valor do bufê”, conta Thiago Carvalho, proprietário do Tchêmaki, em Porto Alegre. O empresário ainda afirmou que trocar o salmão por outro peixe, como atum, por exemplo, traria um impacto negativo perante o cliente: “as pessoas vêm ao restaurante buscando o salmão, já é um hábito entre elas”.

Por outro lado, a proprietária do Shissô Sushibar, ponto tradicional para os amantes da cozinha oriental em São Leopoldo, Serena Kakuta Linhar, afirma que é preciso explorar a diversidade de sabores que a tradição da gastronomia oferece. “Se associa comida japonesa ao salmão, mas há outras variedades de peixes que podem ser usados. Chegou a hora de entender que comida japonesa não é essa mistureba que muitos restaurantes vendem. Temos uma riqueza enorme de ingredientes que devem ser mais consumidos”. Ela acredita que esse problema vai obrigar uma readaptação dos clientes. “Tive que acabar a promoção do temaki no bufê. Antes, ele era livre, agora é controlado, uma unidade por pessoa”.

Alívio só em 2017

A tendência dos preços elevados deve se manter, pelo menos, até o final do ano.É o que garante Ederson Krummenauer proprietário da Frumar, que importa mais de 60 toneladas de salmão por semana. “Os peixes que morreram em grande quantidade iriam abastecer o mercado no final deste ano, com isso vamos ter dificuldades até lá”. Ele, que esteve há poucas semanas no Chile para averiguar a situação de perto, trouxe uma esperança. ”Hoje está nevando lá, temos caminhões no país que foram buscar carga e trouxeram essa notícia”. Com a volta do frio, a temperatura da água baixa, as algas não se proliferam e o mercado volta a fluir.

O Chile tem feito várias ações para contornar a crise. Estima-se que o prejuízo com a mortandade de peixes chega aos U$$50 milhões. “Enquanto governo, estamos fazendo todos os esforços para mitigar os efeitos que esse boom teve de produção de salmão”, disse o ministro da Economia, Luis Céspedes, após reunião com autoridades da Sernapesca para monitorar a situação. A desvalorização do real em relação do dólar também influenciou os preços, já que o país é dependente de fornecedores externos neste mercado.

Analistas também destacam que a crise pesqueira chilena confirma a fragilidade sanitária da aquicultura, sempre suscetível às volatilidades do clima e a doenças. Os criadores de salmão estão lutando contra surtos de parasitas. Contudo, é importante destacar que a proliferação das algas não afeta a qualidade do peixe para o consumo humano. Em comunicado, o Intesal, Instituto Tecnológico do Salmão, ligado à Associação da Indústria de Salmão do Chile, afirma que o caso não se trata do fenômeno conhecido como “maré vermelha” – proliferação de algas que produzem e liberam substâncias tóxicas. Logo, não há preocupação em comer.

Restaurantes têm feito esforços para não elevar o valor dos pratos que levam o peixe. Crédito:Tchêmaki/Divulgação
Restaurantes têm feito esforços para não elevar o valor dos pratos que levam o peixe. Crédito:Tchêmaki/Divulgação

Enquanto aguardamos o esfriamento das águas no Pacífico e sentimos o peso disso no paladar ou no bolso, temos um bom momento para repensar a relação humana com a natureza. Até quando a Terra vai aguentar ser explorada de maneira abusiva pelo Homem?

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