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(Foto: Sabina Fuhr)

Jean-Jacques Dubourdieu fala sobre a sua família, a mais célebre de viticultores de Bordeaux, e a produção de mais 600 mil garrafas de vinho por ano.

Herdeiro de um dos mais renomados e respeitados legados do mundo do vinho, o francês Jean-Jacques Dubourdieu esteve em Porto Alegre no último mês para falar sobre a produção dos rótulos da família. Cultivando videiras e produzindo vinhos desde 1794, na região de Bordeaux, na França, o sobrenome Dubourdieu conquistou o mundo como sinônimo de bons vinhos.

O maior expoente da família, Denis Dubourdieu, pais de Jean-Jacques, falecido em 2016, foi enólogo e cientista. Professor de enologia na Universidade de Bordeaux, conhecido por suas pesquisas sobre aromas, coloides e leveduras, Denis também foi consultor de mais de 70 vinícolas na França e ao redor do mundo.

Considera o “papa do vinho branco”, ele foi o mais influente produtor de brancos bordaleses do mundo. Inclusive, apontando por especialistas, como o enólogo que definiu o estilo dos vinhos brancos no mundo nos últimos anos. Além disso, é considerado pioneiro por investir em produção e pesquisa em brancos, numa região onde os tintos imperam há séculos.

Com a morte do pai, Jean-Jacques, ao lado do irmão Fabrice, assumiu a produção de 600 mil garrafas por ano, um vinhedo de 160 hectares e a História da família para tocar. Hoje, eles comandam cinco propriedades: o Château Doisy-Daëne, um cru classé na região de Sauternes/Barsac, herança do avô paterno de Jean-Jacques; o Château Cantegril, um Cru Bourgeois em Barsac, de seu bisavô paterno; o Château Reynon, que era do avô materno; o Clos Floridene, que reúne os melhores solos para vinicultura na região de Graves; e o Château Haura, arrendado em 2002.

Em evento no showroom da Importadora Porta a Porto, empresa que traz os rótulos das marcas para o Brasil, Jean-Jacques concedeu entrevista à Revista Sabores do Sul.

Em evento na Importadora Porto a Porto, o francês apresentou rótulos de sua marca (Foto: Sabina Fuhr)

Você praticamente nasceu dentro de uma vinícola, não é mesmo?
Fazemos vinhos deste 1794, estamos na quarta geração de viticultores. Quando eu nasci, meus pais estavam vivendo na Château de Reynon. Desde sempre estou ligado à produção de vinhos. Inicialmente, comecei cuidando da organização das vindimas. Já que este é um período muito especial da nossa produção, em dois meses (setembro e outubro), mais de 400 pessoas trabalham na colheita e no manejo das uvas. É um tempo que exige atenção especial, muita tomada de decisões, por isso, há mais de dez ano, meu pai me deixou responsável por essa parte.

No resto do ano, eu me encarregava da distribuição e promoção de nossos vinhos. A nossa vinícola é de qualidade, nossos vinhos não são baratos – não são muito caros também -, mas não vendemos um preço, vendemos um gosto, uma característica, uma filosofia sustentável. Temos uma grande preocupação com o meio ambiente,  por isso, nossos vinhos têm um valor elevado. Viajei bastante explicando estas coisas para compradores de diversos países. Nós produzimos, todos os anos, entre 15 e 20 rótulos, por isso é importante promove-los em todo o mundo.

Rótulos da marca Reynon são produzido nas região do Rio Gsronne, no Sul da França (Foto: Sabina Fuhr)

Você toma vinhos todos os dias, então?
Sim. Com certeza. Assim como meu avô, que tem 94 anos, anda de bicicleta todos os dias e bebe vinhos, também bebo todos os dias, mas pouco. Este é o segredo. Nós quase nunca tomamos destilados, quase nunca tomamos cerveja, mas vinhos todos os dias.

Qual dos vinhos que você produz é o seu favorito?  
Há dois vinhos que eu gosto muito, mas não pelas questões de gosto, sim pela representatividade. Um é o vinho doce do Château de Doisy-Daëne, porque ele representa as origens da família. Meu avô, Jorge, vendeu tudo o que tinha para comprar esta vinícola em 1924. Foi um desafio imenso para a família. Hoje, ela é cresceu, está em evidência, mas você imagina como foi isso há, quase, cem anos? Esta vinícola resume muito bem a história de persistência da nossa família.

Marca Clos Floridence foi fundada pelos pais de Jean-Jacques, Denis e Florence (Foto: Sabina Fuhr)

Outro vinho que eu gosto bastante são os Clos Floridene. Esta vinícola foi criada com um conceito completamente diferente das outras, pelo meus pais, em 1982. O nome faz referência aos meus pais, Denis e Florence. Eles começaram tudo do zero. Agora, estamos crescendo e construindo a parte técnica da Clos Floridene, antes vinificávamos em outras vinícolas. Agora, ela cresceu e está independente. Ela tem um atributo atípico, porque na região temos um terreno que tem muito calcário, que dá mineralidade e acidez diferenciados ao vinho. É uma característica muito especial desse vinho. Não sei se é um vinho bom, mas é diferente. Esse o grande trunfo dos vinhos da Floridene, a diferença. Não adianta você só ter vinhos bons, eles precisam ser diferentes.

Quais são as principais uvas que vocês utilizam?
Para o vinho branco é um bland de sauvignon e sémillion. Já para os tintos, a maioria é de cabernet. É o típico daquilo que você encontra em Bordeaux. Tradicionalmente, nós sempre trabalhamos com as mesmas uvas, o que propicia um maior controle do solo, da qualidade e característica da fruta.

Dubourdieu produz mais 600 mil garrafas de vinho, por ano (Foto: Sabina Fuhr)

Quais são países que mais consomem os vinhos da empresa?
Nosso mercado de exportação é, basicamente, para Inglaterra, Estados Unidos, Japão, China e Brasil. Temos a sorte de aqui no Brasil trabalhar com empresas familiares, como a nossa, a Porto a Porto e a Casa Flora. É uma relação muito boa, muito próxima e eficaz. O Brasil, que mesmo com crise e impostos, é um mercado importante para os vinhos de Bordeaux, um país muito promissor. Vejo grande potencial no Brasil, pois, mesmo com todas as dificuldades, como os altos preços cobrados aqui, cresce no consumo pouco a pouco.

Dentro da França, trabalho muito com distribuidores e apenas 5% das vendas são para o consumidor final. Mas pretendo dobrar esse número de vendas diretas ao consumidor, principalmente explorando o turismo que vem crescendo em Bordeaux. Há 10 anos, tínhamos um milhão de turistas na região, hoje, são 10 milhões. Vamos trabalhar para aumentar ainda mais os visitantes de nossas vinícolas, oferecendo diferentes experiências.

 

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