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Em várias localidades a perda foi de 100%, fazendo com que produtores falissem

Vírus da Mancha Branca, que atinge estados produtores de camarão, derruba a produção e dobra o preço do produto

Quem gosta de camarão notou que, nos últimos meses, o preço do produto subiu, deixando-o ainda mais caro. Se antes o custo do crustáceo já era inacessível para muitos brasileiros, agora ficou, ainda mais, distante. Em algumas cidades, o valor dobrou desde o início do ano. E o problema não para por aí, além do preço, a oferta do fruto do mar também diminuiu bruscamente. A turbulência que atinge o setor, prejudicando toda a cadeia econômica que gira entorno do camarão, que vai desde os produtores, distribuidores, comerciantes, donos de restaurantes e, por fim, o consumidor final, é consequência do um vírus que atinge o animal ainda em sua fase de crescimento. Existente no Brasil desde 2004, segundo a Associação Brasileira de Criadores de Camarão, a Mancha Branca é causada por um vírus que se manifesta na fase inicial de desenvolvimento, calcificando e mudando a cor do crustáceo. Ele morre e contamina os outros, por isso, produções inteiras são perdidas antes mesmo de chegar ao mercado. A doença, no entanto, não é prejudicial à saúde humana. No maior produtor do crustáceo no Brasil, o Ceará, a queda na produção foi de 40%, em outros estados que também possuem tradição na produção do produto, como Rio Grande do Norte e Bahia, os índices de quebra da safra também são elevados. O problema se agrava, pois junto à doença, o Brasil enfrenta outro problema, que é a barreira de importação de camarões de outros países. Somando a falta do produto brasileiro mais a proibição de compra de países vizinhos, o resultado é o preço nas alturas, prejuízos para comerciantes e restaurantes divididos entre repassar os custos ao consumidor ou arcar com o aumento do preço.

Vírus faz com que a presença do camarão à mesa seja cada vez mais rara (Foto; João Ricardo)
A Mancha Branca

Embora seja inofensivo à saúde humana, o Vírus da Mancha Branca é letal para o camarão. Os crustáceos atingidos apresentam redução no consumo alimentar, natação lenta, mudança na coloração – ficando de rosa a pardo-avermelhada – com a carapaça mole e calcificações ou manchas. As primeiras aparições do Vírus das Mancha Branca foram entre 1993 e 1994, no sudeste asiático. Em diversas províncias chinesas, as perdas naquele período foram superiores a 80%, durante o período produtores registraram US$ 6 bilhões de prejuízo. A partir daí, outros países, como EUA e Equador, também tiveram ataques e recordes de mortalidade do crustáceo.

No Brasil, a doença foi detectada pela primeira vez em 2004, em Santa Catarina e causou prejuízos incontáveis aos produtores locais. Em 2005, foi a vez do Ceará.  Responsável pelo estudo que constatou a presença do vírus em nosso país, o instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará, descobriu os primeiros camarões infectados em viveiros do município de Aracati, a 148 quilômetros de Fortaleza. Como ocorreu a entrada do vírus nessa região ainda é discutível, tendo sido levantadas várias hipóteses, tais como o vírus chegou ao Brasil proveniente do Uruguai, que teria importado pescados de áreas sujeitas à contaminação, ou de larvas provenientes de outros estados e, ainda, pela má qualidade da água. Durante uma década a frequência com que a doença atingia as produções era pontual, ainda que destruísse viveiros inteiros. Somente no ano passado, é que foi reconhecida a epidemia na produção de camarão. Em várias localidades a perda foi de 100%, fazendo com que produtores falissem. “Muitos produtores financiam tanques, ração e todo o custo que envolvem o cultivo do camarão, aguardando a venda para quitar a dívida. Ocorre que, com a morte de viveiro inteiros, muitos deles faliram ”, conta o diretor da importadora Frumar, Ederson Krummenauer. Ainda segundo o profissional, muitos daqueles que tiveram perdas significantes em sua produção abandonaram o cultivo do crustáceo, fazendo com que a indústria nacional demora ainda mais para se reequilibrar.

Em várias localidades a perda foi de 100%, fazendo com que produtores falissem
Caro e raro

O empresário Wagner Gonçalves, da Casa de Camarão de Porto Alegre, costumava comprar 700 quilos de camarão por mês, depois do surto que atingiu o principal fornecedor do crustáceo para o estado, o Ceará, a oferta do produto reduziu pela metade. “Nos primeiros meses do ano, consegui comprar, no máximo, 400 quilos. Mesmo disposto a pagar quase o dobro do preço, não encontro camarão no mercado”, conta. A falta do crustáceo do mercado é sentida pela alta quebra de produção. No Ceará, a oferta foi reduzida em mais da metade. Como consequência, além da escassez no varejo, os valores dobraram. Segundo Krummenauer, esta é a pior crise na produção e oferta do produto “Trabalho com pescados há mais de 20 anos e nunca tinha visto nada parecido”.

Como a economia do Brasil apresenta, há mais de um ano, retração e altos índices de desemprego, naturalmente, restaurantes já sentem a baixa na movimentação. Soma-se a isso, o preço alto do camarão e temos um cenário adverso. Sem poder repassar o custo do novo valor do crustáceo, Wagner tem de arcar com o prejuízo. “O preço do camarão subiu 100%, mas eu só pude repassar um percentual muito baixo para os meus clientes, de 5 a 10%. O restante, eu pago, enquanto posso”, afirma o empresário. Distribuidor do pescado para diversos restaurantes gaúchos, Krummenauer conta que a situação se repete em outros estabelecimentos. “Vejo diversos lugares que, sem poder tirar o camarão do cardápio, empatando ou até mesmo tendo prejuízos”, relata. Quem pode está deixando de usar, mas quem não consegue, encontra dificuldade para viabilizar o lucro”, relata. O mercado vislumbra duas saídas para a crise, a primeira é importar o crustáceo de países vizinhos, algo que a legislação não permite; a segunda é aguardar a normalização da produção nacional, o que pode demorar até dois anos.

Entidades pedem a liberação da importação do produto vindo do Equador
Solução vem do exterior

Diante da escassez de camarão no mercado brasileiro, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, a Abrasel, buscou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para liberar a importação do produto vindo do Equador. A medida causou polêmica, já que associações de produtores do crustáceo são contra a quebra do monopólio da venda do camarão para o mercado nacional. Segundo os criadores, a entrada do pescado vindo do país vizinho apresentaria riscos sanitários. Para afastar a suspeita de uma contaminação ainda maior dos criatórios brasileiros, o MAPA realizou um estudo sobre liberação de importação de camarões sem cabeça, descascados e congelados originários da aquicultura proveniente do Equador para consumo humano. Após a pesquisa o órgão, atento à importante causa econômica e social que estabelece relação ao problema de desabastecimento do camarão no mercado nacional, fez a opção pela liberação apenas do filé do camarão. Sendo assim, não haverá o trânsito de resíduos sólidos, não demandando qualquer atividade de reprocessamento no Brasil, impedindo qualquer ameaça sanitária.

O processo de importação começará após amplo processo de credenciamento de empresas equatorianas, o que pode levar alguns meses. Depois disso, será feita a rotulagem do produto, procedimento de certificação técnica que elimina qualquer possibilidade de risco ambiental ao Brasil. A Abrasel defende que o camarão proveniente do Equador possui credibilidade fitossanitária a salvo de qualquer contestação, mesmo porque é exportado para diversas potencias mundiais, como Estados Unidos e que possuem sistemas de proteção sanitária reconhecidamente rígidos e complexos.

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