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Ruído interno de alguns restaurantes perturba o momento solene da refeição.

Quem vai a um restaurante busca algo mais do que uma boa refeição. Quer momentos agradáveis para rever amigos, confraternizar com familiares, namorar, relaxar, enfim, se divertir. Porém, um problema recorrente e cada vez mais comum parece se proliferar sem que proprietários e até mesmo os clientes percebam a dimensão do incômodo. O barulho interno de alguns restaurantes é irritante. Não há encontro que resista!

Talvez seja nossa herança “de galpão”, talvez seja o hábito de circular em churrascarias, mas não é bem por aí, pois a questão não se restringe ao Rio Grande do Sul. O mal se alastra por todo o Brasil. Conversas alheias, o desfile de saltos, ruído de talheres ou pratos e às vezes até o som de carros, buzinas e tudo que deveria estar lá fora, invadem o ambiente, atropelam os sentidos e perturbam o momento solene em que tudo deveria estar direcionado para o paladar.

Muitos empreendedores não têm conhecimento das possibilidades de isolamento acústico porque raras são as pessoas que reclamam do barulho e menos ainda aquelas que deixam de frequentar o local por este motivo.

Diferentemente do piso engordurado, na cortina grossa de pó ou dos tapetes manchados que – sim, denunciam a falta de cuidado e manutenção, o barulho incomoda, mas não chama a atenção e parece que ninguém reclama. Além disso, para muitos, casa cheia e barulhenta, significa sucesso, portanto não há com o que se preocupar, certo? Errado.

“Frequentar restaurantes, muitas vezes, pode ser uma experiência geradora de desconforto auditivo”, afirma o arquiteto Henrique Steyer. Profissional multidiciplinar, Steyer considera o silêncio fundamental para uma boa refeição. “Eu, particularmente, não me sinto bem em grandes restaurantes e bufês de almoço executivo nos quais diversas pessoas disputam espaço para comer  o mais rápido possível. Este tipo de situação, além de incomodar, me gera ansiedade, o que perturba meu horário da refeição. Acredito que o momento de se alimentar deva ser um momento tranquilo, livre de pressões e correria. Um ambiente bem climatizado, sem aglomeração de pessoas e silencioso torna a ocasião muito mais prazerosa e saudável”.

E nem precisa ser aquele espaço barulhento nos shoppings, as chamadas praças de alimentação. Steyer lembra que há restaurantes focados nos ganhos rápidos com a alta rotatividade e para isso já são projetados de forma que o cliente fique ali o mínimo de tempo possível, assim o fluxo das mesas é maior e o estabelecimento fatura muito mais. Uma iluminação estilo hospital, aquela, predominantemente branca, um piso frio e cadeiras menos cômodas… pronto! Esta é a receita para que o cliente coma rápido e dê lugar para o próximo.

“A falta de cuidados com o conforto acústico é unanimidade neste tipo de estabelecimento. Paredes, piso e forro compostos por superfícies lisas, propiciam a reverberação do som dentro do ambiente. Fazendo com que o som dos talheres se some ao som das conversas, da cozinha e etc., tornando o local extremamente desconfortável”.

Henrique Steyer lembra algumas técnicas que podem ser utilizadas para minimizar os problemas de acústica e inclusive profissionais especializados para buscar as melhores soluções. As mais comuns são o uso de superfícies texturizadas, paredes e forro com alguns ângulos, tecidos, tapetes, moveis estofados e ate mesmo placas de espuma abaixo dos tampos das mesas. “Precisamos criar superfícies em que o som bata e não retorne. Quanto mais elementos que absorvam o som forem utilizados no espaço, melhor será seu conforto acústico”, ensina.

 

barulho interno

Tudo parte de um bom projeto

“Cada casa é um caso”, brinca Iran Rosa, arquiteto com bastante experiência em projetos para bares, cafés e restaurantes. E vai direto ao ponto: “A melhor solução em acústica está sempre ligada diretamente e proporcionalmente aos recursos financeiros disponíveis. Em poucas palavras, quanto mais grana melhor a acústica”. Porém, a falta de planejamento é outro fator importante. “Se o problema da acústica do ambiente não foi um item considerado relevante no início dos projetos (tanto pelo cliente/proprietário quanto pelo arquiteto/construtor), a concepção do espaço já nascerá prejudicada”. Resolver o problema posteriormente é possível, sempre é, mas em geral, exige um investimento maior. Uma análise técnica e profunda do local, realizada por profissional qualificado no assunto, certamente irá apresentar soluções possíveis de adotar e que irão responder satisfatoriamente ao problema.

Em qualquer caso, custo, planejamento e compromisso estão sistematicamente interligados.

Para Iran Rosa, o principal problema que se percebe, a partir de um olhar (um ouvir, no caso) técnico, está na concepção do espaço. “Na maioria dos casos é a relação volumétrica destes espaços versus os materiais que são utilizados em revestimentos, por exemplo. Falta uma correta aplicação visando ao conforto acústico ambiental. E esta falta se dá pela pouca atenção que é dada à questão acústica na concepção do lugar”.

Com atuação em Novo Hamburgo e em Porto Alegre, o arquiteto Rafael Daudt concorda com os colegas e acrescenta que não existe receita pronta. “Tudo parte de um bom projeto e, não partindo dele, só se resolverá com outro bom projeto”, afirma. “O tratamento acústico pode ser associado ao projeto arquitetônico ou ao projeto de interiores.O arquitetônico é mais complexo, mais definitivo, mais caro. O de interiores pode simplesmente partir da preocupação acústica aliada à estética na composição de materiais e formas”.

O grande desafio para os profissionais, ressalta Daudt, é encontrar o equilíbrio perfeito entre materiais de fácil manutenção e boa absorção acústica. “Não adianta colocar um carpete lavável, pois a gordurinha da picanha vai penetrar na fibra no almoço e a equipe de limpeza só virá na manhã seguinte para fazer a correta higienização do carpete. Não adiantam cortinas bufantes ao lado de pratos fumegantes, pois elas não se manterão integras ate o final do mês. Não adiantam painéis de madeirinhas lindas se não for feita uma limpeza com cotonete e pincel de cerdas macias”, enumera ele.  O custo de manutenção destes materiais acaba sendo grande e o empreendedor acaba desistindo, opta pelo que mantém o ambiente mais asséptico possível, garantindo a confiança do cliente de que limpeza existe ali!  Resultado? Pisos brilhantemente polidos e laváveis, paredes lisas, forros lisos e muito eco.

“Ambientes mais qualificados aparecem pelas mãos de empresários mais exigentes e que buscam os clientes mais exigentes.  Percebe-se nitidamente pela concepção do próprio espaço, do projeto arquitetônico, do cardápio, do atendimento”, destaca Rafael Daudt. Vem tudo junto no mesmo pacote. E, nestes lugares, normalmente você não precisa gritar para o garçom entender que você pediu carmenère e não camembert!

Por Rejane Martins

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